Fragmento aleatório 1

Ouvi gritos chamando meu nome e por algum motivo não corri, mas caminhei com calma até a sala para tentar entender o que aconteceu.

– Ele puxou meu pescoço, tentou me levantar! – Ela falou ofegante e assustada.

– Ele quem? – eu respondi com a voz suave e calma enquanto olhava ao meu redor sem ver mais ninguém no local.

Não sei o motivo de tanta calma e, aparentemente, coragem, mas é como se eu já soubesse quem ou o que era “ele” e tivesse perguntado apenas para confirmação. Ao meu redor o ambiente estava estranhamente claro e sufocante, se é que essas características conseguem ser combinadas em alguma coisa. A sensação que eu tinha era de estar em meio à vários lençóis brancos estendidos em varais paralelos e secando ao sol forte: tudo claro, mas com a visão limitada.

– Eu não sei! Alguém agarrou meu pescoço e me puxou para cima, eu não conseguia gritar, mas comecei a me debater muito tentando dar cotoveladas até que me soltou e caí.

– Mas você viu alguma coisa? – perguntei já sabendo que a resposta seria negativa.

– Não! E não acertei ninguém quando comecei a dar cotoveladas, mas eu senti um braço no meu pescoço, tenho certeza, era muito frio, mas eu sei que era um braço e também acho que tentou me morder. Olhe aqui se tem algo no meu pescoço.

A região do pescoço estava avermelha, sinal claro de que alguma coisa tinha feito pressão ali, mas o curioso mesmo era uma marca de mordida na lateral direita, leve, mas a marca perfeita de uma arcada dentária estava lá.

A calma foi embora, mas a coragem permaneceu. Acho que raiva e coragem andam juntos, assim como ações burras que podem ser questionadas posteriormente com uma visão mais fria da situação. Senti meu sangue fervendo e a expressão de calmo e tranquilo mudou rapidamente para a mais pura raiva.

– Eu tô aqui caralho! O que porra você quer? Apareça agora, faça o que quiser fazer comigo, eu tô aqui e não tenho medo de porra de nada não!

Eu sei que parece loucura gritar para o nada, aliás, é loucura gritar para o nada, mas eu sentia que estava falando com alguém ou com alguma coisa, e na hora o sentimento de raiva me impulsionou e quando eu percebi já estava ali gritando.

Por alguns segundos apenas berrei, sem nenhuma resposta ou sinal, o que de algum modo aumentou minha coragem. Olhei para ela e ela respondeu com um olhar assustado e tenso, também olhando ao redor à espera de alguma coisa que comprovasse que ela não estava mentindo. Sim, ela sabia que algo estava ali, ela sabia que não estava delirando e imaginando coisas. Talvez minha “forte presença” tivesse ameaçado o que quer que estivesse na sala, mas infelizmente eu estava muito errado, e pagaria caro por subestimar algo que eu ainda desconhecia completamente.

Lentamente uma energia fria começou a envolver o meu corpo, subindo pela minha perna. Não era dolorido, mas era frio, como se o local ficasse dormente. Olhei para minhas pernas e não via nada, mas as pernas não respondiam, eu não conseguia sair do lugar.

A força continuou envolvendo meu corpo, e aos poucos foi tomando forma, com a pressão aumentando, deixou de ser uma energia para parecer com braços, vários. Braços percorrendo meu corpo sem deixar eu me mexer, e eu sabia que todos eles terminariam no meu pescoço, era questão de tempo.

Sem reação, ela olhava para mim, e meu semblante de raiva e coragem havia mudado para surpresa e medo, acho que este último era dominante. Eu não falava nada, eu não conseguia fazer nada, estava completamente congelado.

Aquilo prendeu meus braços e agora estava envolvendo o meu pescoço, com a pressão aumentando a cada milésimo de segundo. Minhas pernas estavam livres, mas percebi que já estava na ponta dos pés, elas eram completamente inúteis. Eu comecei a ser lentamente suspenso, enquanto era estrangulado de forma proporcional. Vou morrer estrangulado ou enforcado, pensei de forma involuntária, como se fosse fazer alguma diferença, mas já sabendo que era o meu fim.

Meus olhos buscavam algo, alguma saída, eu tinha de fazer alguma coisa, mas o que? Eu não via nada, não tinha ninguém ali; ela também assistia tudo assustada sem entender, eu estava completamente suspenso no ar e não tinha nada visível me puxando.

Em um último suspiro de força, tentei me debater, mas foi em vão. Meu corpo já estava fraco, se entregando pela ausência de sangue oxigenado no cérebro ou ar nos pulmões, talvez os dois. Já não tinha mais o foco da visão, e percebi que não estava ouvindo mais nada, apenas um silêncio reconfortante.

Lentamente fechei os olhos e parei de tentar focar em alguma coisa, agora era apenas o escuro que enxergamos com os olhos fechados, mas seria eterno. No mesmo instante relaxei completamente o meu corpo, não tinha porque continuar resistindo, naquele ponto eu sabia que era inútil. Aceitei o meu fim, e não tive tempo de questionar o porquê daquilo tá acontecendo, e o que estava fazendo aquilo comigo, mas apenas aceitei, era a única coisa que eu podia fazer. No último momento lúcido, uma gota de tristeza escorreu pelo canto do olho, mas apenas uma gota.

Se aquilo era morrer, não era tão dolorido como eu havia imaginado.