Você tem sorte

Não faz muito tempo, eu estava indo correr na praia num domingo bem cedo. Parei no semáforo e tinha uma criança de aproximadamente uns 13 anos (criança no ECA é até 14 anos incompletos) com uma placa improvisada escrito “tenho fome”. Pensei por um tempo, baixei o vidro do carro e ajudei com 20 reais, um valor atípico para uma doação de semáforo.

Quem me conhece sabe que eu não costumo dar dinheiro, por diversos motivos que explicarei em outra ocasião, mas faço questão de comprar quando estão vendendo qualquer tipo de coisa, e caiba no meu bolso. Contudo, nesse dia olhar aquela criança ali fez ressurgir uma antiga reflexão: é tudo questão de sorte.

Eu sei que você vai dizer que trabalhou muito para alcançar alguma coisa, que é batalhador, que fez por merecer tudo que tem, e eu até acredito que sua força de vontade tenha alguma importância, mas o que realmente separa você daquela criança que eu vi parada no semáforo é a sorte.

Você tem sorte de ter nascido onde nasceu, aliás, você tem sorte até mesmo de ter nascido, acredite, são mais de 55 milhões de abortos por ano no mundo. E nascer nem é o maior fator de sorte da sua vida, a realidade de muitos é sofrer de algum modo, e são muitos: fome; guerras; mortalidade infantil; vítimas de crimes; tragédias naturais; diversas doenças. Eu poderia passar a tarde inteira listando cada ponto de “sorte” que você teve para chegar até aqui.

E agora, prevendo sua contra argumentação, eu acredito que você vai dizer que conhece várias pessoas que compartilharam da sua realidade, viveram no mesmo meio que você, mas tiveram um destino sem as mesmas conquistas. E aqui eu respondo novamente: sorte.

Todas as nossas decisões são baseadas na carga de experiências que acumulamos ao longo da vida. Cada “sim” e cada “não” que você fala despretensiosamente é resposta de um complexo acumulado de informações que só você possui, são as suas verdades, a sua visão exclusiva do mundo, a sua realidade.

Essa carga de experiência é lentamente moldada pelas pessoas que aleatoriamente passam em nossas vidas, e chame como quiser: acaso, destino, carma ou sorte. Agora pense por 1 minuto e você conseguirá identificar pessoas com importância ímpar na sua vida. Continue pensando e imagine se sua vida seria a mesma coisa sem a existência de tal pessoa. Sabe aquele puxão de orelha que você recebeu no momento certo? E aquele “não” importantíssimo que você ouviu de pais chatos e incompreensíveis? Sabe aquela conversa esclarecedora que ajudou você a tomar alguma decisão? Eu sei que você sabe. Até mesmo o pé na bunda que você levou é uma peça importante.

E eu não estou falando apenas das “pessoas boas”, o equilíbrio da vida constantemente fará com que os dois tipos de indivíduos se apresentem, na mesma intensidade. Quem será mais presente na sua vida talvez seja uma escolha que você possa fazer, dentro da porcentagem mínima que está além da sorte e que você pode dominar.

Seja inquieto, levante e vá buscar o que você quiser na vida, até mesmo reclame um pouco, mas entenda que você tem muita sorte. Como eu sei? Pelo simples fato de você está lendo esse texto. Você tem sorte por querer viver mais 50 anos, e não enxergar a morte como um descanso merecido. Você tem sorte por esperar conquistar muita coisa ao longo da vida. Você tem sorte por vivenciar prazeres e satisfações advindas de diversos momentos. Você tem sorte por não ser aquela criança que eu vi parada no semáforo. E se você tem mais ou menos sorte que um terceiro, não é importante discutir aqui e agora.

Sim, eu concordo que é complicado reconhecer e assumir que a sorte me fez ser o que sou hoje, e ainda está atuando fortemente para determinar como será o meu eu de amanhã. Posso ter uma boa sorte e alcançar as metas traçadas dentro da minha margem de escolha, ou posso simplesmente morrer vítima de um raio (1 em 1 milhão). Não apenas, mas é tudo questão de sorte.

Por fim, uma simples pergunta:

você tem sido um ponto de sorte na vida de alguém?