Um sopro em meio ao caos

O ser humano não aceita a pequinês da sua própria existência. Nós somos responsáveis por determinar qual a razão da nossa permanência no mundo. Somos um breve sopro em meio à desordem, um nada determinado ao nada, e a única coisa que podemos fazer é viver este momento.

Seja qual for a força primordial que deu origem ao ser pensante e ingrato que está escrevendo agora, ela não está atenta para os nossos atos e observa com descaso tudo o que fazemos, assim como o condutor de uma retroescavadeira, que até imagina, mas segue despreocupado com a formiga que trabalha zelosamente carregando o carma da sua curta vida de operária, um grão de areia. Um Deus justo, apático e, de certo ponto de vista, cruel.

Sim, insignificante. Supostamente é a palavra mais ofensiva que eu posso usar. Como assim eu não fui especialmente e cuidadosamente esculpido por uma força onipotente, onisciente e onipresente que esculpiu todo um universo, e algo antes disso, com cerca de 2 trilhões de galáxias observáveis, e escolheu minuciosamente uma notável com apenas 400 bilhões de estrelas, indo além disso e escolhendo uma estrela média rodeada de alguns planetas, entre eles um pedacinho de terra com 8.7 milhões de espécies? E isso tudo não gira em torno de mim? Das minhas escolhas? Do meu destino brilhante? Da minha opinião? Que blasfêmia!

A terra possui aproximadamente 4.5 bilhões de anos. Não somos nada na história do globo em que vivemos, surgimos há apenas 195 mil anos, eu e você bem menos, uma validade média de 75 anos, um sobro no pandemônio que é o universo.

Abraçar que somos frutos do acaso é libertador, mas toda liberdade vem saturada de encargos. Responsabilidade pelas próprias escolhas, pelos próprios atos, bons ou ruins. Não ter um criador pra incriminar, para responsabilizar pelo destino, é desesperador. Eu não sou culpado de nada, sigo atribuindo tudo a alguma providência divina, naturalmente é mais fácil. Pobre homenzinho insignificante e arrogante que vive em um grão de areia. E a razão da minha existência? Uma divergente a cada dia que percebo que acordei, ainda não foi dessa vez que me alforriei desta responsabilidade.