Ser fiel contigo mesmo

Em um dos clássico mais conhecido de Shakespeare, Hamlet, há um trecho interessante em que Polônio dá alguns conselhos ao seu filho Laertes:

“(…) Sobretudo sê fiel e verdadeiro contigo mesmo; e como a noite ao dia, seguir-se-á que a ninguém serás falso.” (Ato I, Cena III)

O conselho escrito em 1599-1602 mostra-se necessário na atualidade, quando passamos a enxergar que estamos vivendo uma época em que as pessoas estão abrindo mão da personalidade e passando a tentar absorver pontos isolados de terceiros eleitos como “ídolos”. Tenho dito: idolatria é uma barreira que cega e limita de forma absoluta.

Algumas pessoas acham que precisam tentar copiar cegamente algo de outros, semelhante a uma rasa poça d’água que reflete de forma turva a imagem de alguém, mas que eventualmente secará e o resultado deixado para trás é aquilo que realmente é: um nada. Ou ainda, como o arroz que vai do arroz-doce ao arroz à piamontese, mas isolado não tem gosto algum, falta personalidade, falta essência, falta conteúdo.

Contudo, não entenda que é errado se inspirar em outrem, o ponto aqui é não ser um falso sem opinião, que na sua frente diz X, mas amanhã dirá Y, simplesmente para agradar o novo grupinho. Sociável? Político? Amigável? Não, é falso mesmo.

Quem não é fiel a si mesmo, quem não carrega princípios e opiniões próprias, quem não tem personalidade alguma, e vive tentado apodera-se das qualidades isoladas de “ídolos”, eventualmente irá se mostrar uma pessoa falsa. Neste contexto, não vem ao caso julgar se a opinião é boa/má ou certa/errada, não importa, o fato é olhar para um indivíduo e saber quem ele é, saber que não está falando apenas para agradar. Não é questão de petrificar sua opinião, o ponto chave é ter, sinceramente, alguma opinião.

Agora volte para a analogia do arroz. Imagine que o arroz sem gosto observa e analisa de forma burra diversos pratos que agradam e, por falta de personalidade, tenta absorve alguns ingredientes isolados: o chocolate da palha italiana, um pouco do paio/linguiça da feijoada, o morango da salada de frutas (…), junta tudo e… que combinação desastrosa! E assim será sempre que alguém sem personalidade tentar absorver apenas aquilo que elege como qualidade, sem entender que somos um complexo de características boas e ruins que, isoladamente, não possuem destaque algum, mas depois de anos e anos de ajustes forma algo único, firma uma personalidade.

“Interessante o ponto apresentado, mas por que você pensa assim?” Alguém perguntaria numa discussão qualquer. “Porque Fulaninho Fodão, meu ídolo máximo, disse outrora”. Responde o papagaio humano. Oras, então chame seu dono, papagaio das ideias limitadas e copiadas, e a conversa poderá seguir com pessoas que sabem os seus porquês, sem medo de conflitar pontos de vista, sem medo de diálogos, sem medo de não agradar à maioria.

É curioso como uma obra tão antiga aconselha algo tão necessário nos dias de hoje: tenha princípios, tenha personalidade, não seja um espelho quebrado, e acima de tudo seja fiel a ti mesmo, e não será falso com ninguém.

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Ayslan Alves
Bacharel em Direito pela Universidade Tiradentes, Especialista em Direito Público, Especialista em Direito Constitucional Aplicado, Especialista em Direito Penal e Processual Penal e Pós-graduando em Tribunal do Júri e Execução Criminal. Atuante na área de Segurança Pública desde 2014, com diversos cursos pela SENASP (Análise Criminal, Crimes Cibernéticos, CIAI, COI, Gerenciamento de Crises, Identificação de Armas de Fogo, Investigação Criminal, Mediação de Conflitos, entre outros).